terça-feira, 4 de setembro de 2018

NOVAS POESIAS - COMPLEXOS SINTETIZADOS DE UM ABSTRATO (1994)


A HÉLICE DA ESPERANÇA

À Danielle 


A hélice da Esperança
Que sou eu
Contigo, não só
A hélice da Esperança
Que és tu
Beleza
Inocência do ser
Em nós

A hélice da Esperança
Que é a displicência das palavras
A beleza da sinceridade
A ternura, o bem-querer
Até mesmo a saudade
Pairando em ares tristes
A hélice da Esperança
Que é a própria tristeza
Para me consolares
E eu te consolar
Plantar-mo-nos novos sorrisos
Cativados e enternecidos
Nos pequenos e imprescindíveis gestos
A hélice da Esperança
Que nada é
Além da própria amizade







A INVASÃO DOS MARES II


Nadem
Nadem que é o correr sobre o mar
Nadem para as montanhas
Nadem para as alturas

Onde estão os barcos?
Nada mais flutua
É inevitável perecer?

Resta debandar. Mas adiantará?
Também está à frente
Tudo virou ilha
Liberto e afundo

Acolhe as crianças, ó Netuno

Contra a correnteza, nadem
Contra a morte, contra a fé
Os mares encobriram o Éden
O medo devorou a serpente

Nadem vivazes
Até quando as câimbras lhes mortificarem
Mesmo que todas as montanhas os oceanos cubram
Nadem
Cruzem com seus corpos todos os mares
Ainda que comecem a congelar na Antártida
Ou alimentem suas partes os predadores
Nas lágrimas da mãe-terra nadem
Sob um amor profundo nadem
Ou vaguem para sempre
No mais reles de seus braços







A QUEM INTERESSAR


É a importante presença que completa
Força retirada do bem explícito
Sub-reptício não é

Melancolicamente nova
Extraordinariamente mesma
Tão bela pode vir a ser
A quem interessar

A busca da razão é
Sempre a maior razão
Depois da própria razão
Que é Deus

Pra vida, um sentido
É sempre o maior objetivo
Depois do grande sentido...

Beirar todos os riscos
A prova
E como tal sutileza
Tem seu espaço

Não é só uma alusão
Do orador que me representa
Representará também
A quem interessar







BOM DIA, POETA

Bom dia, poeta
Que espera deste dia?
Alguma curva em linha reta?
A Rotina desafia?

Com o que pesa suas metas
E impulsiona as fantasias
Hábil as arquiteta
Ou apenas lhas irradia?

“– Pra hoje espero, tão somente,
Da mesma forma, simplesmente
O que almejei todos os dias...

O degrau que não subi
Não entendi e não cresci
Adiante tornaria”







CADASTRO DE PESSOAS FÍSICAS


Vêm e vão, no espaço
Pessoas físicas
Transeuntes
Abarrotam a mente
Onde tudo passa mais devagar
E se esvaem
Se não souberem
Se quiserem







DIÁLOGO INTRAPOÉTICO


O poeta recobrando o seu romance...
Uma frase simples de dificílima compreensão
Sério nos dons e brando nos sentidos
Aluno inocente de sua transfiguração

“alvas são as nuvens” – diz – “meigos são os pássaros
Belas são as rosas da natureza plácida
Opíparo eu vou, festivo eu estou
Passeia sobre mim o pincel do amor
Cativo desejos e a satisfação pessoal
Mas não me limito
Sou inter
O que me floresce é a sensibilidade
Sei que quero mais
Aos poucos.”


O poeta para...
...pensa...
...canta ‘Andrea Doria’...
E pronto. Está triste.
(Vê-se cercado pelos ares da tristeza)
E reconhece quem mais o corteja

Conclui-se que ele é um poço de conflitos
E de lembranças
Conclusão que o arrelia
E em uma dispersão se desfaz
E satírico se refaz
E mais e mais energia acumula
Sem pólos.

A noite lhe é terapêutica
Mentaliza
Dispensa-lhe sua ansiedade
E morre para aquele dia
Desvanece
Devaneia
Até renascer outro dia
Numa expectativa constante







EU CONCOMITANTE


Costumava dizer em meus dias
Eu
Só, com outrem ou comigo
A valer, eu
Em tudo e qualquer incluído
Meu Complexo de primeira pessoa

Costumava dizer que mudara
Em mim
Por forças de dentro do Eu
Sim
O Eu que outrora pareceu
Ter força demasiadamente aparente

Costumava crer-me o governante
De mim mesmo
Um Eu pasmado e delirante
Sujeitando-se a esmo
A própria autoridade inocente
A restringir-lhe para sempre

O passado parece ser gente
Um personagem soturno
Tendência interessante
Ser aluno
Do Eu concomitante
A todo passado vigente, um presente






EU CONTRA O AMOR


Eu contra o amor
Luto até a morte. E morro
Eu contra a atração
Quero o controle de mim
Caio contra o flerte
Levanto-me depois...

Eu contra a Beleza
Agonizo; retraído
Contra mim mesmo
Deveras eu

Todos contra mim
A ternura me desarma
O intelecto me fascina
O perfume desnorteia-me

Quiçá, guarde-me
‘inda que fraquejando
Até o retorno do Amor
Triunfante
Sempre triunfante





FARPAS MINHAS

Meu coração me trai
Posto que tem vontade própria
Meu coração jaz
Nas proximidades da morte
Não cantarei sob sombras de oliveiras
Não descreverei arco-íris
E nem brincarei de coisas irreais
Falarei das demências
Sob névoa e com formigas subindo pelos meus pés
Falarei da dor
Que floresce dos homens
E paira
Onde está a mensagem positiva
Homens (?)
Eis a mensagem
Homens
A vida improdutiva que não cansa
A razão cancerígena que não corre
Retornam
Em círculos
Em símbolos
Nas drogas e nas bobagens
No poço em que não há fundo
Afundo

Não existem saídas dessa terra
Homens (?)
Enxuguem suas lágrimas
Deponham as máscaras em seus rostos
E ouçam
Ainda há tempo para se ouvir
Homens (?)

Não digam o que quis que dissessem
Digam o que quero que ouçam
Que sabem
Homens (?)




FÚRIA


O que me consome
projetarei
A humanidade vã
ter-me-á, vão

Existo do universo imenso dentro de mim
do meu grande poço de caos emerjo
completamente seco

Saturado de limites estou
Atos e gestos fúteis me são típicos
Besteiróis meus plenamente se perpetuam
Vejo o mundo piegas,
as mentes pobres que lhe pululam,
ouço as histórias confusas sobre o amor
e os anseios vãos pelo saber da justiça
É na sabedoria da futilidade que tudo flutua?
Quero ver agora no espaço físico
tudo o que enxerguei por dentro, há muito
O reles cotidiano surpreendentemente maquinal
gastando e descartando peças...

Basta!!!!
Quem penso ser, a libertar-me agora?
Blindado por dentro e volúvel por fora
Remando desajeitado, ridículo
à beira do mar do ridículo
Não sou importante
ou menos importante do que a inviolabilidade dos atos e dos costumes
Ralho porque reclamo, reclamo porque ralho
Para fazer valer a reclamação, voz dos limites
Dou vida aos caprichos do egocentrismo
A glória humana será sempre satírica
A imaginação defende o lirismo
Tanto quanto depende da ironia

A poesia é a satisfação pessoal,
mas não é tudo
Nada é tudo;
só Deus.
Retorno à minha carapaça de jabuti rufião
Desenvolto, minha índole festeja
sabendo que estou sendo eu,
sentindo-me eu a mim mesmo
Um eu que me satisfaz por inteiro
Que emerge do meu plantel de bobagem
se bobagem maior não for




INOCÊNCIA


Toda menina aos quinze anos
possui uma fonte de beleza
a qual embora não acredite
desconhece.
Que flui,
ou muitas vezes se perde do mundo
para nunca mais retornar

Como depende a vida do sol nascente,
a maravilha do mundo, beleza inocente
perdendo o controle, fluindo sem rumo...






MEDOS


Tenho andado com medo de ficar sozinho
Medo do escuro
Medo das janelas [fechadas]
Medo
Do que está as minhas costas
Ou o que meus olhos momentaneamente não alcançam

Tenho medo dos meus medos
Que se aglutinam satíricos
Chamem de “carência afetiva
Ou “complexo-de-não-sei-o-quê
Não me importo com isso
Pois, isso não temo

Às vezes chego a acreditar que o que me aterra é um monstro
Chamado Solidão
Vejo uma nuvem confusa sobre os meus sentidos
E fico exclusivamente à mercê de meu coração

Tenho medos que jamais tive
Medos que nunca parei para ouvir
Tapando os ouvidos para mim
Gozo pouco da solidariedade
Que impulsiona e estimula libertação

Mas, e daí? Compreendo a complexidade do processo
E não receio os desafios
Estou pronto para me acalmar
Nos braços dos meus amigos
Nos lábios de meu amor...






MUTANTES


Mutantes
Pelicanos eretos
Perdem o senso
Do certo e do incerto
Já vão marginalizados
Feridos onde dói mais

Mutantes
Pelicanos eretos
Sentem a falta
Do amor e do afeto
Todos generalizados
Geralmente demais

Mutantes
Só mutantes






NATALINA


Feliz natal, amigos, feliz natal
Não há o que falar, além nada.
Já disse, feliz natal

Feliz natal, Marcelo
À Danielle proporcionado seja
O mais feliz dos natais
Feliz natal, Dani –
A marca primordial de meu ano
E todos...

Feliz natal, amores de todo o tempo; de todo o mundo
De todos os natais-além-dos-anos
E todos os dias-além-dos-sonhos

Feliz natal, amor
Onde quer que você esteja
Quando quer que você seja
Prosperidade a todos e a tudo

Obrigado, Deus, pela minha vida
Obrigado, Jesus, porque o Senhor é bom







O CLÃ DOS SENTIDOS


Aberto o diálogo
Sou promissor e não falo
Falo bastante de símbolos
Se símbolos são todos os físicos
E seu egocentrismo

Aberto a teses prováveis
Sou indagador e não vejo
Quase nunca
Quase nada

Aberto o Clã dos Sentidos
Sou o presidente e não sinto
O que difere de um sentido sem-par




O CORETO

Certo! Que seja o meu coração um coreto
onde crianças de alegria pulam
acercadas por estranhos
que choram em silêncio o não serem mais crianças
o não estarem ali

É-me primordial a verdade
a simplicidade dos acontecimentos
o que me faz medir
e analisar as palavras

Perdôo-me se vivenciei por mais de um minuto
 o fictício de minha imaginação

Oh, Deus
Dai-me uma síntese de mim!




O DESERTO


Sombra;
Transparência
Miragem
Vejo o sol
Jamais poente
Inquestionavelmente só
Como um homem num museu de dinossauros
Antíteses
O complexo da vida que se completa
Tudo o que compacta sem sintetizar
A fome e a sede do corpo e o espírito
A voz que se cala
A audição interrompendo os demais sentidos
O tempo letal do destino
Persistindo
Além da visão
Moléstia calma
Espaço flamejante
A sombra que se satisfaz
Sem satisfazer mais ninguém




O ORADOR

Errando, beirar a sensibilidade
A fisionomia, tranqüila
A revolução, interina
O sentimento, qualquer
Nas mãos, quase tudo
Pouco júbilo
E eu, o pequeno orador que me representa,
A mim e aos meus sentimentos
Inepto a lidar com sentidos de outrem
Despeço amizades e inimizades
Transbordo sentidos
Disse o ‘fingidor’: “domina ou cala”
Digo: ame ou perca-se
Faz-se às vezes necessário saltar
Imergir ao fim
Sob tudo


Eu te amo, mãe
Eu te amo, irmã
Eu te amo, mulher
Amigos
Amor

Amo-vos, estranhos,
Professores

Eu te amo, Cássia
Eu te amo, Angélica
Eu te amo, Lucy
Eu te amo, Paula
Eu te amo, Ângela
Eu amo

Amo-te, Catarina
Amada mãe
Amo-te, Adriana
Irmã

Eu te amo, Cláudio
Eu te amo, Reginaldo
Sim, eu vos amo
Eu te amo, Gustavo, Fernando, Claudemir
Eu te amo, Romero
Amo-te, Genivaldo
Amigo, fiel amigo

Eu te amo, Cris...

Eu te amo, Vera
Eu te amo, Isabel
Eu te amo, Darcy
Mestras

Amo-te, Danielle
Amiga de minha vida
Sônia, Simone
Eu vos amo

EU TE AMO, VIDA
E mais do que a tudo e todos
Jesus Cristo, o Senhor

Amo tanto para amar um pouco
Amo a todos para amar a mim mesmo
Penso em vocês e lhes guardo para manter a minha própria estrutura
Porque co’amor eu me construo
Sereno
No momento em que o tenho
E nada me dispersa

Amo-vos, amigos
Contem comigo
Far-me-ão bem
E nem me respondam se assim o quiserem
Amar não é compromisso
Indistinto do zelo
São-me, pois, todos especiais
Individualmente especiais




O VIAJANTE


Batem na porta
Espiam pelas arestas da fechadura
E partem

Deixam a casa do viajante
Andante
Que corre estradas por mundos distantes
Visitando reinos, nações
Testemunha passiva de todas as palavras
Mas que dessa vez em casa
Estava
E tudo desandou.

Será que ele, o viajante
Não estaria sempre
Desencontrado sempre por milésimos de segundos?
Há motivos para a porta não se abrir?

“Não há nada” – diz o viajante
“Não se abre apenas à impaciência
E não me mostrarão a expressão de meus defeitos
Do lado de fora”

(Pobre andante! Deixa a porta aberta...)




ODE DE PESSOA LATENTE


Defina-se
Viva, mas
Pedante serás sem mim
Não sou que te empresto humanidade?
Harmonioso como música
Complexo como o instrumento
Objeto das coisas tangentes
Pasmado de um sol poente
Mais pedante comigo
Até as nossas saídas

Basta
Deixa-me
Deixa

Vivencia
Sério
Transcendental
Conhece-te
Ao menos o ser que apresentas como tu
E respeita
Teu ser que desconheces
Fortifica-te
Todo sentimento tem um pingo de egoísmo
Impavidamente sufocado
Pela hipersensibilidade
Não te bastará ser eloqüente
Sê algum próprio instinto
Domina-te
Alegra-te
Fortaleça-te num sorriso
Com ou sem lágrimas
Serve-te das difusões
Que a vida nos oferece
Difunda-te também
No espaço em que vigoram teus sentidos
Intransponível
Livra-te dos males que te impuseste
Desvenda tua própria loucura
Sanada
Pelo instante em que tiras proveito
Devaneia
Exposto, todavia imune
Intelectualiza-te
Por um respeito à mente
E um não temer perante suas sombras
Saiba que cada complexo é um resultado
Sê bom, mas sê potente
Indulgente, mas não tolo
Sê uma peça de princípios
E voa nos ares da vida

Voando nos ares da vida
Voando nos ares da vida
Que passa despercebida
Voando nos ares da vida
Vivida plena, nunca esquecida
Voando nos ares da vida
Linda, merecida
Voando nos ares da vida
Deixando a dor da partida
Voando nos ares da vida
Pra aventura maior, acolhida
Voando nos ares da vida

Não dissertes sobre o amor com veemência
Trai-te
Quiçá nem diga “amor
E mais convencido d’amor estarás
Quem fala do amor com exatidão
É também pedante
Assim como quem não olha pra si
Orgulhando-se de si sem se ver
Não profetize os teus sonhos
Se não os diferencia, deixa-os
Se os alimenta, aguarda
Não reconheças a beleza
À primeira vista
Sê exigente e olha profundo
Bela é a beleza que transpassa a carne dos olhos
E atinge a alma
De resto, só a perversão
De um símbolo que derrete como a neve
Sendo só uma pausa pro espírito
Que voa nos ares da vida
Voando nos ares da vida
Voando nos ares da vida
Que passa despercebida
Voando nos ares da vida
Bela, porém corrompida
Voando nos ares da vida
De trilhas oferecidas
Voando nos ares da vida
Pista a pousar, vida
Pouso denotando paz...

Não te perpetue
Plorifera-te
Luta por teus objetivos
Sempre satisfeito
Respeita-te
E serás digno de ti mesmo
Respeita a todos e deveras digno serás


Sê pouco, mas sê inteiro
Deixa que teus medos pereçam
Deixa que teus males se cansem
Só pare na primavera
Para contemplar as flores
Correrás nos anos e anos de tua vida
Nos dias, nas horas e nos minutos
Tendo toda pressa por partir
E nenhuma em chegar

Acalma-te
Não consuma tua mente em desfilada
Tenha a alvura da tua posição
Sem altercação
Pois passando despercebida
Inteira e jamais esquecida
Linda desmerecida
Portando a dor da partida
De trilhas oferecidas
Bela, aquém corrompida
A vida
Em que liberto voas
Ao menos livre em ti mesmo
Viver é um jogo
De oportunidades propícias
Pequenas lamentações
E um mar que tudo acalma
Uma fome
Um zelo
Uma dor

Amplia-te
Extrai o máximo de ti
Equilibra-te
Semeando tuas sementes e teus frutos
Ri
Diante do horizonte
Dourado pelo arrebol
Arrebata-te
Do teu eu que te corrompe
E salta
Nos braços do infinito

Sê grande, mas sê servil
Elucida-te
E sê ocluso
Pouco
Por fim, escuta-te
Mais do que a mim
Mais do que a qualquer outro
Se muito mais tens a aprender contigo
Permaneça liberto
Fala-te e ouve-te
Simultaneamente
Mas não te abandones a ti mesmo
Não te deixes carregar-te em teus próprios braços
Sê o que evolui contigo
Tudo o mais despeça
Sintetiza-te
Representa-te sem par
Sê mais força do que questionamento
Mais brio do que censura
Entrega-te
A Deus
Ao amor
E a vida

Sê um projeto pensado
E pensante
De alguma-qualquer-coisa
Alguém-qualquer-pessoa
Em pejo, em festa
A todo custo
Ciente de tudo
Goza da tua liberdade
Tu, a liberdade
Tu





OS ESPELHOS


1ª parte

Por ti poderia eu me reapaixonar
hoje
posto que continuas apaixonante
sempre
descobrir-te de novo
mas não te esqueceria
Momentaneamente só estou podendo sonhar
e  pasmar como quando vejo o mar
imenso, cediço e simples
Lindo!
Como tu.


Todavia, penso em você como penso nas outras duas
que perfeitamente poderiam ser três,
quinze, milhares,
uma a cada segmento de meu espírito.
Tenho várias realidades
Minhas vidas têm vários mesmos sentidos
Minha equação sou eu
Dividido em incógnitos fragmentos de mim

Saibas, pois, que por ti eu poderia dopar-me
com depravações ao meu físico
e que nada faço por ti,
nada faço por mim
Faço por fazer-me sentido
Faço por que creio
Faço com prazer
O resto deixo
Aos meus instintos interinos
Abrandando-se balsâmicos
ou sensíveis


2ª parte

Basta, sou um!
Abarrotado de defeitos, limites
Um
Magro, perecível
Um
Convencionado a propagar de mim mesmo
Apenas um
É só o que me diz os espelhos

Delimitado por fatores externos
inquestionavelmente emergidos de mim
que são o empecilho de minha dispersão
mas não me mutilam
contemplo-me, enfim, o único

Convencido estou de que sou um
a discutir com si mesmo
a se idealizar a cada minuto
girando como uma roleta
Sim! Sou uma roleta inconstante
Incoerente, procuro meu êmulo
em mim

Já sei que sou um
que nunca é o mesmo




OS OCEANOS

“Atlântico
Dizei-me, sois rei?
Perdestes a mansidão
Num infinito cercado, previsível
Fostes mais rei há muitos séculos
Posto que ainda de vosso monstro fugiam
Com seio impuro resististes

Lavai a alma da Terra
Em lugar nenhum conquistais o descanso
Sois mais como autoridade de outro reino
De reconhecida e limitada nobreza
Sois o brasão das águas
Símbolo
Fonte da vida na Terra
Piegas no céu dos mares
Aliando-vos aos vilões da América
Vicinal do berço do mundo...



Índico;
Príncipe d’África
Aos pés da Ásia
Espremido por dois reis
Jaz
No limite da Austrália
Jaz
Para o Novo Mundo
E reina sob limites
Despercebido


Ártico;
O absoluto
No gênero
Coroando Novo e Velho mundo
E sorrindo
Das mãos que o afastam
Pífio
Em meio aos seus irmãos



Pacífico
Fazes jus ao teu nome?
Sois rei
Não serves aos homens que te servem
Aterra-os ainda com teus monstros
Cativas ainda tuas ilhas paradisíacas
Paraíso
Não sois a parte de um corpo
Que não tem um corpo em si
Sois belo como imensos olhos azuis
Que se abrem co’a luz da manhã
E com sorrisos
O mundo das águas
Puro ainda
Deleite pouco
Reinais sobre o absoluto
E sobre todas as águas
Abundante
Auto-suficiente
Liquefazendo-se
Multipartindo-se
Acolhendo em vosso seio
Pequenas ilhas tranqüilas
Longe da imaginação”






OS OLHOS DA COR DO MAR


À vossa majestade
Princesa encantada
Encantadora de algum eu em mim
Um eu não definido
Definitivamente curvado
À vossa beleza indescritível

Os lábios, o corpo, o ser
E os olhos
Que se misturam à terça parte do mar
O mar, sinônimo de tudo o que é belo
E indomável
E se entregue, deságua
Em oceanos maiores
As curvas das águas
Moléculas divinas
Sereia: revelai-vos
De que terras evaporastes?




PERDIDO EM MIM


Perdido em mim sou muito
Confuso agora, a pouco, simples
A cada vitória busco novas batalhas
Sem nunca esperar um resultado
Venço e perco indefinidamente

A cada derrota ergo o meu olhar
E busco uma nova visão




PRINCESA


Saberás ser atraente
E despertarás saudade
Ferirás os fracos
Perderás os volúveis
Que tudo isso serás mais.

Reconhecerás a tua beleza
Livre do deslumbre
Haverás de sonhar
E amarás inesgotavelmente
Sem se cansar

Serás sabiamente humilde
E acima de todas as coisas porás
A sinceridade

Honrarás, sobretudo, a poesia
Louvarás vigorosamente com música
Artes te banharão a alma
Sensibilidades te iluminarão a vida
E com seu sorriso lindo
Abraçarás o mundo




SABERÁS POR QUE FALO

Usar a arte como muletas
Não reduz as lágrimas
Usar a flor como beleza
Usar armas como desejo

Usar os medos como senhores
Querer as dores como refúgio
Usar idolatrias como sentido
E tomar o dom por coragem

Usar o berço como inimigo
Comprar ideais para satisfação de outrem
Fazer da inteligência um escudo
E manter um escudo de pessimismo

Tomar da intolerância a bandeira
Ou se arrastar incólume pela fantasia
Tudo isso é lícito
Nada disso é lúcido
Desmereceria...




SE OUVES DE MIM PALAVRAS TRISTES


Se ouves de mim palavras tristes
Então me vês
Mas se a tristeza enxergas em meus olhos
Então me amas...

Se ao toque de tua pele estremeço
Desejo-te
Se contigo compartilho meu próprio entendimento
Eu amo você...

Eu amo você é comum de ser dito
E deveras mais simples de desdizer
Já disse, tenho fé no sentimento
Pois dele desconfio merecer

Não me manipula o amor
Só a sombra que projeta em seu sentido
O amor quando me vem não vem em mim
O amor quando me vem sou eu
Vestido de uma energia
Assimilada, inexplicável
Faz de mim aquém ser outro
Tenro, doce, sutil

Basta de falar de martírios, (sim, o fiz)
Despedidas sempre me dispersam
Tal qual finais felizes me deprimem
Meu relógio é simplesmente o ato de saber
A hora de chegar a hora
Os únicos comunicadores são os olhos
As únicas palavras são o flerte
Viril, inconsciente
Inconseqüente




SÍMBOLOS


Ares e cenários se confundem
Ostentando diversas imagens invisíveis
Não poucas vezes surpreendo-me questionando
Se o que vem de dentro pode haver além de mim
Algo como: “A natureza dos olhos da alma”.


A Terra:
Estreita e delimitada
Livre em seu anonimato
Normal, no mais

As pedras:
Reveladoras
Carne de esplêndidos templos
Ruínas
Breves e eternas
Tão imponentes quanto abstratas.

O bronze:
Imóvel déspota
Garboso sujo
Assimilado pela matéria artificial inexistente
Onde somente brios e honras
Compõem uma natureza ênea.

As flores:
Mais simples
Menos expressivas
Imperecíveis
Imunes ao toque
E de bálsamo latente.

Os astros:
Inexistem.
O Universo é a Terra.

A água:
Soube que a alma é limpa
Conheci, atônito, dissoluta é a pele
E a água nos brande uma calma
E serve à sede de uma ânsia qualquer.

Os mares:
São os mesmos...

A terra(os campos, as cidades, as ilhas, o chão):
Abarrotada como os ares
Inóspitos livres.

Os morros:
Eis os templos
Sob o verde da vida.

O fogo:
Emergindo certo de nós mesmos
Alusivos às necessidades
Dos corações impetuosos.

A vida:
 Peculiar e única
A que atua fora dos espelhos.

As nuvens:
Personifico como as águas
Não poderiam ser mais espontâneas
Nem se chovem o sei
Apenas sei que estão lá
E tranqüilizam.


(Meus ares e cenários se revertem a mim)




TACITURNO



Taciturno.
Eu. Definido.
Arredio, dispersivo, sonhador.
Consenso quase único de ninguém.
Uma presença nimiamente ausente.

Antes isso do que ser lampeiro
zelando por um nexo insidioso
debelar minhas inércias
digladiar-me só contra meu íntimo.
Basta-me saber a importância das lágrimas
e sujeitar a impaciência.

Taciturno.
Prossigam.




TARDE DO POETA (COM O POETA UNIVERSAL)


Eis mais um momento
Na vida do poeta
A tardinha
As sombras que caem relaxantes
Uma certa paz de espírito
Pequena, mas intensa
Os primeiros bocejos
As primeiras fugas de seu próprio ser
Uma lírica tarde
Do poeta enamorado
A se despedir do sol
O poeta dos astros
Universal
Em sua linguagem de sinal
Ultravioleta




TRANSE


Concentração e pronto; nasce um fundamento
Que cresce,
cresce,
cresce,
cresce,
cresce,
cresce,
cresce,
cresce,
cresce,
cresce,
cresce,
cresce.
E se constitui em alguma coisa.

Desligamento profundo; abre-se um mundo paralelo
de possibilidades que pairam,
pairam,
pairam,
pairam,
pairam,
pairam,
pairam,
pairam,
pairam,
pairam,
pairam
e pairam
Viajantes do mundo “além-físico
Filosofias complicadas
que iludem
e iludem,
iludem,
iludem,
iludem,
iludem,
sem um convencer definitivo
Vale deixar a mente livre
e sorrir até o fim




UMA BOA NOITE


Os pensamentos passam
Parecem tão pesados
Deixam-te cansado
Nunca aliviam

Segundos mais
De sua juventude
Volta a quietude
Brasas esfriam

Sem um último canto
Sem nenhum pranto
A despeito dos sonhos
Paz restituída

Como se o céu anunciasse
Segurança certa
Decorrem os dias
O ciclo da vida

O corpo enfim, estaciona
Um espírito onírico fica
E todo livre-arbítrio
Será lírico

O deslumbre da vida
Sua incerteza
Então boa noite, poeta,
Meu ser empírico

24

Composta de oito tercetos sem métrica ou rima. O penúltimo verso desta canção de 1996 inspirou o título deste blog.

https://youtu.be/iHIPOed_BNE


24 - FSANTOSOUSA

Nestas vinte e quatro linhas que aguardam poesia
eu não tenho direito a ter opinião própria
só a ser um escravo do equilíbrio

As perfeições, os nexos, não precisam de nada
mutilações e figuras de outros sonhos
desvalores pungentes do mundo pagão

na dádiva eterna humana da arrogância
como que a esperar o vício
preservar-se-á o vestido, a música

Os mortos cavalgam sobre a terra
a Terra ainda repousa sob os mortos
só não haveria altares para a vida

Vê-se os encaixes perfeitos entre os extremos
a mais completa e suprema obra do acaso
no espaço, os julgamentos omitidos

Como ser homem sem saber demais?
Como não erguer minhas mãos vazias?
Como voltar "pó", sem "esia"

Liberdade, ilusão deveras
todas imagens são um só sentido
a rala tinta da matéria na escuridão

Liberdade, ilusão deveras
jaulas vazias de um tempo indomável
Vinte e quatro vezes perdi meu tempo

domingo, 2 de setembro de 2018

O PODER DAS PALAVRAS - 1994

FABIANO SANTOS SOUSA
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S
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R
V
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L
A
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Introdução
Poesias são idéias
são sentimentos
sentimentos modulados em idéias
conceitos da alma e da aura
uma notável grandeza, de vital importância
uma visão emocional autêntica
exclusivamente humana
o coração da razão.
Mas o dom, onde está?
Cuja ausência tudo impossibilitaria.
O que é da poesia
sem o poder das palavras?


ANTICORPOS
Palavras doces, palavras sutis
No lugar de palavras hostis
No lugar da mais singela expressão de mágoa
Síntese de transmutação de sentimento
Dar a mão e dar de ombros
Ao invés de seus próprios escombros
O sentimento assolado
Camuflado
Iludir-se com a própria paz
Que da ilusão é deveras mais
AMOR
M
I
Z
AUTRUÍSMO
D
E
No lugar do mordaz egoísmo
E tudo mais e nada mais
Da imunidade além da genética
A sobriedade eterna do espírito.
Palavras que há tanto se diz
Não se diferem hostis ou sutis
Se não pelos insólitos confins da poesia
Que não são palavras ou expressão de arte
Mas apenas os órgãos da natureza
Resta que ações não são palavras;
Se palavras amórficas são
Difícil é entender estruturas destrutíveis


AOS POUCOS
Vais-me aos poucos conhecendo
E muito de mim sabendo
Quase tudo que também o sei
Só não desvendarás, por lei
O que de mim até ofereço,
Mas também desconheço


APENAS
És orgulhoso
individualista
convencido
pretensioso
e brilhante?
És pouquíssimo de algo
que é mais do que a bondade sem brilho,
do que tudo sem nada,
do que a vida sem Deus.
Cala-te.
Sê apenas tu.


ARREDIO
A flor me dá bom dia
Seus olhos me dão amor
A noite me dá o dia
Somente assim eu poderia
Ouvir o “bom dia” da flor
Meus amigos vão-se embora
Não os seguro, meus amigos
A alguns é meu jeito
Asseguram, defeito
E vêm trazendo nas costas
Verdadeiros inimigos
Durmo chorando
Porque você não me entende
Não sabe como, ou não tem por quê
Só há, evidência que não vê,
Seu próprio olhar que me rende
Quero acordar e começar o meu sonho
Sorrir encobrindo a tristeza
Mergulhar num oceano de amor
Ver do mundo sempre a beleza
Um mundo imenso e exclusivo
Nosso Pai e Mãe Natureza


BAILARINA
A menina
Que baila no chão como em nuvens
E que rodopia no êxtase dos corações
Corações que são seus pedestais
Como és dos palcos a mais bela das luzes
Emocionando com leveza e graça
O olhar fixo
Sob tantos outros desesperados por um sorriso
Alucinados pela coragem e a postura
Saibas, bailarina
A maior utopia é cumprir os teus passos
Os teus saltos, a físico-espiritual elevação
Transpassa os olhos, a mente e chegam até o espírito
Resta aplaudir-te por vários mundos
Tua brisa é como o imo da vida
Teu espírito é um pássaro
A tua linguagem é a do Universo
A arte, sangue do universo, flui-te nas veias


BEM-VINDO 
Bem-vindo a um novo dia
Uma nova aurora de uma mesma vida, (menos um dia)
Menos todos os aniversários que tu insistes em comemorar
Não importa onde estás,
O que fazes, pensas ou sentes
Só que seja tudo novo


DEFINIÇÕES DE SER
EXISTIR?
CRER EXISTIR?
CRER?
SABER?
APEGAR-SE AOS SENTIDOS?
TEORIZAR?
SER PORQUE TUDO É?
TUDO É? É O QUÊ?
TUDO É UMA EXISTÊNCIA,
OU TUDO EXISTE SEM SER?
INEXISTIR É O NÃO SER?
SER É NÃO SABER O QUE SER?
SER É SE FAZER O QUE SER?
SER É TER VIDA? SER É TER?
SER É VIVER.
VIVER?
DEFINIÇÕES DE VIVER...


ENSEADA
Qual repousa nos solos sob insondáveis ares
Recitando sua força contra a resistência das rochas
E contra os homens sua grandeza linear?
O Mar
Quem passa como a não passar e vive como a não viver
Secundado como vida e como ser
Expoente máximo sob o luar?
O Mar
Quê sem física livre condição
A inconstância do romance, a melancolia do prazer expira
Mas só a paz reproduz e aceita proliferar?
O Mar


ESSÊNCIA DE LUZ
Se é parte do meu caminho
E meu olhar desnorteia
Ou de outro só anseia
O sangue de ilusão cheio
Que ilude mesmo o receio,
Mas se veio até aqui primeiro
Já não pode voltar sozinho
Sendo rosa no jardim
Que a aurora, enfim, clareia
Sofrimento que o amor custeia
Mas nem sempre com atreio
Faz o bom escravo feio
Um tiro frio e certeiro
Traz a lógica pelo fim
Se a rosa faz-se espinho
Envenenando nas suas veias
O sangue que lhe traz a ceia
Com ele a morte também veio
Fere a dor, fere o receio
E tal o tiro não verdadeiro
Verdadeiramente daninho


HOMÔNIMO
Vale o que pede, cala o que tem
Crente o que crê sem ver
Bom o mal que a alguém faz bem
Feliz o que chora, ido o que vem
Breve o que dura
Prazerosa a dor
De quem abraça a dor de alguém
Bela imensa vida
Horrenda morte, desdém
Ganha o que ganha, perde o que perde
Ama o que quer e quer amor também


INEPTO ÀS EMOÇÕES
Inepto às emoções...
Foi dito.
Inepto às emoções?
Inepto às emoções.
Inepto às emoções!
Sim.
As emoções.
Está dito.
As emoções!
As emoções...
Emoções?


INSTINTOS
Cruéis são os instintos
Cruéis são os instintos
Se sinto e depois lamento
Cruéis são os instintos
Se minto
Cruéis são os instintos
Cruéis são os instintos
Se por amor põem-me faminto
Cruéis são os instintos
Frios e distintos
Não é a índole, é como um ímpeto
Inconstante e insensível
Não é o ser nem o não ser
Infindável, invisível
Cruéis são os instintos
Cruéis são os instintos
Se sinto e depois lamento
Cruéis são os instintos
Se minto
Não são os ares, é a energia
É como a vida sob a vida
Não deve a dor ou a alegria
Libertação instituída
Cruéis são os instintos
Cruéis são os instintos
Se sinto e depois lamento
Cruéis são os instintos
Se minto


L’AMOUR
Preceito normal feito de papelão
Notado e prostrado na matéria vil
Vasto tênue e amorfo, (não de morfina)
Devasta e jaz bravo servil
Compreendes o que de nós é feito, anjo
Trocarás a minha mão pela da tua natureza?
Opor-se à própria gênese,
Expor-se à luz acesa...
Não deve ser assim, não pode ser isso!
Médio mas simples, mero delito
Como ausência despontamos
Na omissão nos inserimos
L’amour, anjo, não se constrói
Com belezas que ferem, olhares que fascinam
Mas duela contra o tempo num flerte infinito
Na simplicidade mística embala os sonhos perdidos
Nos profundos esconsos do âmago
No âmago dos homens e do mundo
Mundo abstrato de sonho
O sonho perfeito: l’amour


LIBERDADE VIGIADA
Tragam-me os olhos que me traem
Em longe vida longa e mesma
Ouçam as palavras que me ferem
Espreitem doces os quais acuso
Deslizem palmas que não me tocam
Têm o vazio por defesa
Instintos tenros que não são meus
A promotoria da beleza
Jurados briosos tão saturados
Tão saturados de ausência
Laços aquém de amizade
Não por vida social
Cores que não vislumbro
Passos que se afastam
Severo meritíssimo
Quem por mim não bate


LIRA
Sinal de devaneio
Lira que a memória guarda
Sombra viva da poesia
Reluzente austera farda
Beleza rara, esplendorosa
Deponha as armas e então fascine
Jaqueline
Íntimo silencioso, profundo ímpio
Afogado na mais doce ternura
Certamente não transborda
Displicente se censura
A magia que tudo redime
Jaqueline
Um mundo maior do que o sonho
O sonho maior do mundo
Luz emanando vida
Vida em eterno segundo
Menina e grata delícia
Templo e reino sublime
Jaqueline
As águas do Paraíso
Deusa de todo o azul
Ceda a flor da pele
O esplendor do norte ao sul
Se a imagem não alimenta
Que a matéria determine
Jaqueline
Recompensas vêm e vão
Pequenas e grandes, mesmos lugares
Jamais se revelam
Incitam ainda como olhares
Queres saber o que sinto?
Sintas, não imagine
Jaqueline


MENSAGENS QUE SE SEGUEM
Venho pôr censura em atos concretos
Se impávidos serviram, não com endereço
Libertinos, vis donos da verdade
Que em verdade viveram nada
Teoremas prescrevem o que se crê
Escudos ocultados com imposturas
Idéias são idéias, homens são homens
De cada homem, no mínimo uma idéia.


NÃO VIESTE
Nas noites e nos dias de todos os meus dias
Esperei-te assim, confiante
Calmo e nada exultante
Transcendendo da razão à fantasia
Fantasia que se não esvai sozinha
Não também o receio mestre
Que não houve, como não vieste
Que ainda agora m’afinha
Objetiva é a tranqüilidade pungente
Que com gente ou sem gente me põe sempre tranqüilo
De libido branda e inocente
Tácito impenetrante
Pena persuadi-lo
Só não vieste, simplesmente


O ESTRANHO
Divago por sorte e beleza
Almejo tenra fantasia
Anseio por palavras sutis
Sublimes por serem tardias
Veementes imperiais
Romances à revelia
Luz que traz deveras
Ânsia que não sacia
Simples estarrecedor
Encanto sem simpatia
Fruto da inverdade
Serpente da poesia
Busca enaltecida
Fútil mitologia
Dias que vão embora,
Vinda de outros dias
Asa remanescente
Que de altos sonhos pendia
Brio em estado de ser
Ser que não seduzia
Fé que nos toma a frente
Frente que recuaria
Lua que brilha sempre
Sempre que cessaria


O MAR E A LUA
Ouça;
deverás nascer cauto
esperam maldizer-te
vibrem teus intempestivos sonhos
Terás que partir
Não deixarás nenhuma lágrima
Mesmo elas estão contadas
Sabes a qual desmerecer?
Diga;
palavras, a quem ferirão
de pedantes anfitriões?
Tão tolo seria abster-te da tua força
para calar um libertino
Perdoa-me, em verdade
se te arrelio com íntimas convicções
Já me foge tua existência
Conquistaste teu semblante
Deixaste de ser algo que comigo jaz
Confunde-te, novo, aos sinos
que te vão deflorar a perfeita harmonia
És dama tão bonita
Teu corpo são brados
Tua alma é tonal


ANJOS FIGURADOS
Todas as coisas na forma de sonho
Todos os sonhos têm cheiro de anjo
Em todo anjo há um pingo de dúvida
Tende toda dúvida a aliciar
Lábios ardentes que flamam
De anjos sagazes humanos
Longe aqui do celeste
Nos divinos laços do amor
Todas as asas são livres
Todas as jaulas são crime
Deixam-nos os sonhos as flores
Terrenas armas dos anjos
Auras viram mulheres
Auroras inspiram bravura
Desfaz-se templo em ruínas
As asas que sobram são paz


O QUE SE ACABA
O que se acaba é o que não se valoriza
Esvaído o sentido da existência
O que perdura é o que se retém na memória
O que se acaba é o que oferece a certeza plena da conquista
E não se renova
O que se mantém é só com o trabalho
O que se acaba é o que se desperdiça
Sem ideal e sem causa
Perpétua é a sabedoria
O que se acaba é a superfície
Tudo o que não é essência
O que reluz eterno é o âmago
O que se acaba é o que se economiza
E tudo o que há mais de mesquinho
Só nos frutos que distribuímos com amor vencemos
Porque amor é o que mais fica.


ONTEM
Fitei a minha vida ontem
Que partiu para ser antes nas barreiras de ontem
Prestes a ser anteontem
E ante... ante...
Ontem.
Ah, este tempo impassível!
Na condição de ser fator soberano
Arrebata, apossa-se de nossos “ontens” e “anteontens”
Nossas “outroras”, nossas “outr’eras”, nossa essência
Faz-se cárcere eterno de cada fragmento de lembrança
Mas não, não quero a chave para ontem ou amanhã
A resposta para ambos traço agora, hoje
Pois sendo hoje, farei o amanhã
E d’amanhã serei
ontem...


PARA 3 NOVAS VISÕES
Os olhos se abrem pela primeira vez
E tudo o que era praxe passa a ser novo
O mundo faz-se um sonho permanente
Três vivas para a liberdade de impressão: (viva X viva X viva)
Tudo o que satura compõe-se em novidade
Ares carregados se esvaem
Confábulos, sorrisos em pequeno espaço
Três hurras para a criatividade: (hip-hip hurra X hip-hip hurra X hip-hip)
O ânimo, a prova ascendente
Primeiros passos demorados para não cair
Caminhos tortuosos feitos de passarela
Palmas para a nova coleção: (palmas X palmas X palmas)
Até chegar à mordaz fronteira
Rematando a álacre ficção
Soprar a chama à prova tua brasa
Apupos para tal condição: (Uh! X Uh! X Uh!)


PARÂMETRO A2
Transamos
Com a veracidade do sentido do amor
Um ato sexual pleno e voraz
Nublado de beleza poética
Além de prazer e magia
Rompimento dos laços
Asas dadas aos instintos
Corpos que fulguram e latejam
Na árdua peleja do desejo
Fluem então as energias
Amálgama dos loucos, até a explosão do êxtase
Em altas nuvens de relax pousamos como um único ser
Até as forças se recomporem em equilíbrio
Enlaçamos as mãos
Elas nuas, nós já vestidos
Nosso desejo é imenso
Nosso amor é real
Abraçamo-nos
Trocamos olhares por sonhos
Com carinho, toco você
E todos os sentimentos percebo
“te amo”, eu digo e nasce-lhe um sorriso
E para não o perder, seus lábios tateio
E eles me levam a viajar
Agora são os instintos humanos despidos
E são só sensibilidade
Todo anseio já cabe no coração
A ternura e a inocência dos planos
Como de uma virgem, o receio natural da dor...
Falamos em casamento
E com ênfase, conjecturamos sobre nossos filhos


PEGUEM-ME A MÃO
Peguem-me a mão e me puxem
todavia sem me arrancarem o braço
Não sacudam os órgãos de minha música
Não desmantelem os ossos de minh’alma
Pois não terão o que querem de mim
senão comigo
Não terão o que querem de mim
sem mim
Olhem com ternura em meus olhos
mas sem me agredirem o coração
Deslizem suas palmas sobre o meu corpo
mas sem me violarem com as suas impurezas
Pois não terão o que querem de mim
senão comigo
Não terão o que querem de mim
sem mim
Abram-me os olhos a sua clareza
sem me convencerem, (que eu me convença por mim só)
Previnam-me sobre os males que trago comigo
mas sem me conduzirem à abjeção da dependência
Pois não terão o que querem de mim
senão comigo
Não terão o que querem de mim
sem mim
Brindemos a sua cultura
sem deixarmos de saudar as minhas próprias crenças
Só não me definam seu amor
porque do meu não me despeço
E não terão o que querem de mim
senão comigo
Não terão o que querem de mim
sem mim


PLORIFERAÇÃO
Dos meus males purifico tudo o que fiz
Pois muito de mim sinto imortalizar
Grande ou vão
Primordial ou piegas
Novo ou notório
Porque sou eu:
Grande ou vão
Primordial ou piegas
Novo ou notório
Os males que comigo trago
Só de meu físico se alimentam
Consomem-me somente o ser
Que passa
E o meu espírito
Multipartido
É o que se mantém...


POETISA
Pego pelo ponto fraco
Expresso o amor com mais cuidado
Muito mais vulnerável
também, a bela e a poesia
Piedade para os fracos e sensíveis
na beleza
da bela e da poesia
e em poesia bela
que seja bela a poesia


PROCLAMAÇÃO DA REPÚBLICA NA TERRA DA POESIA
Queres nascer
és imperiosa, tens um brilho puro e celestial
da temível inocência viva oriunda do bem e do mal
Queres nascer;
e antes de o fazeres já não podem impedir-te
Com graça e compostura aprendeste a reluzir-te
Impossível, pelo desvio, seduzir-te
Queres nascer;
não me oponho, como não se opõe o pai subjugado
o sofrer que deveras traz é no amor recompensado
ainda que me contorne, cego aprisionado
Queres nascer;
sempre a cercar seu mundo como um horizonte
mais do que independência, sonhas também ser fonte
Ter imparcial posição
Sinto, no imo do coração
que queres nascer-te...


ROSAS ROSAS E ROSAS AZUIS
O poeta não é louco
Porque ama
Louco sim é o que ama
Sem ser poeta
Ou o que se diz poeta
E não ama
Não se sabe se amar é lícito
Pois não é lógico
Doravante nada lógico
Será ser poeta
Sendo amante
É deveras mais lógico o que ama, entretanto,
Longe da poesia
E toda loucura do poema
Lógico de amor


ROSA-VENENO
Eu, poeta? Ah, quem dera!
Se por um instante ousei, não sei
Ao longe foi tudo o que pensei
e mesmo o qu’inda penso me não espera
Rimas, canções, universo
tudo pronto, em nome do amor
os não feitos para o vazio
transformam-se em ódio e dor
O ódio corrói a alma
A acidez da dor digere a vida
Sonhos lindos, livres, teus
somente te poderão purificar
Vida real, inconsciente
Não manipula, apenas ensina
Energiza ilimitadamente com poder
e destrói apenas com a verdade


SONETO AO AMOR
Onde estais amor de minha vida
Que não ainda provastes com glória
Não serdes um surto de memória
Após serdes meu infanticida?
Por que viveis ainda ocluso
Se a pátria em meu peito chora?
De dentro é o que vai fora
Ou fora está dentro em desuso?
Sois inspiração que o artista aguarda
Ou um tesouro de época sem mais valia
Fosses antes o tempo que não falha, não tarda
Astro reluzente da noite e do dia
Que distância não há que vos menos arda
Até vos mostrar, plena poesia


TESES
Acredito no sentimento
E dele desconfio
Acredito em mim
E me decepciono, ou não
O amor é real
Embora se lute contra isso por conveniência
Os homens choram
As mulheres não
Eu não conheço a sua dor
Ela existe mais arbitrária
À frágil presa
E se nada disso vivi
Tudo são teses, tudo é fé
Eu só vejo a beleza
Quando nela me perco
E se me perco
Aí desconfio
E crio.
Os homens erram
Para serem homens
E serem menos
Do que quem os fez
E se redimem
Os de verdade


TRISTE
Não, não me peça para não ficar triste
Não me faça reluzir onde só estou opaco
Não me cobre ser chama se só sou fumaça
Eu não vivo? Você não vive?
Criações que somos da linha viva
Assim, subexiste a ímpia tristeza
Eu sei, não queremos permanecer tristes,
passivos escravos da melancolia
Voltaremos a querer a alegria
Deveremos recuperar os sorrisos
e a ânsia pela busca da felicidade
mas não agora, não hoje.
Não, não me peça para não ficar triste
Não cobres de mim a dissipação superespontânea
Acaso pareço de tristeza instantânea?
Outros dias ela vai e vem
e para nos dias que tenho comigo
Não de mim queira coisas impossíveis
nem coisas possíveis além de minha vontade
Não percebe que preciso estar triste?
Canalizar tanta mágoa, tanta dor
A tristeza não é uma fuga
embora tantas fugas ofereça
É como sonhar
Como comer, andar e dormir
É uma lícita invasão
das fontes espúrias de evasão.
Exceto o não ficar triste, peça-me o que quiser
ou feche os olhos e durma ao embalo das nuvens
Meu sentido é ambíguo como o mar, a tristeza
divergindo o ficar, o estar e o ser
(triste)


VALORES SOCIAIS
Saberás ver a mentira em meus olhos
Este mundo não me pertence
A poesia se renova
O crescer atropela a vida
A mente cansada quase não se refaz
As missões previsíveis quase sempre procedem
À parte tudo isso
Restam as verdades da vida
A beleza feminina é precisa
Não é dúbia, nem traz sentido figurado
Aqui não caberia sua afabilidade e inteligência
Só a física e a metafísica da forma
Os valores sociais ferem o livre-arbítrio
Vivaz, assaz, cediço o tropeço das ideologias vigentes
As grandes visões se deturparam e seguem o mesmo rumo
A um passo da Filosofia
Tamanha pretensão humana!
Abraçar o mundo...
Ser você mesmo
Altera o tamanho da sua dignidade.


VALORES
Dormirás para me ter
E despertarás tempo além
E outra vez dormirás
Por me ter
Olharás com vontade para teus valores plantados
E te desvendarei em nosso leito
Descobrirás teus princípios, teus propósitos
Não faremos amor
De amor seremos feitos
Lúcido, maior do que nós
Não quero teus valores menores do que os meus
Qual no grande deserto
Belos castelos inanimados
Quero te fazer parte de mim
Meu amor, entenda
Não desista, me procure
Estou sempre perto
E se fosse fácil seria bobo
Tão bobo!
Até amanhã, querida


A BUSCA DOS SENTIDOS INEFÁVEIS
Mostra-me teu corpo
E abre-se um sorriso em minh’alma
A poesia não é uma linguagem
De mera desenvolta assepsia
A poesia, para mim, é teu corpo
As décimas em teu ser, tua forma de soneto
Teus olhos românticos, tua boca harmônica
Teus mistérios perfeitamente indescritíveis
Tem o sexo em tudo, a poesia
A excitação das rimas
O orgasmo do verso derradeiro...
Mas nem as palavras nem a exaustão
Tenderão tranqüilas a ser poesia
Se não são tua boca, teus olhos, teu corpo


A INVASÃO DOS MARES
Os loquazes estão cansados
De tanta filosofia
Os poetas, desmotivados
A tecerem poesia
Os atores desapontados
Por fingirem a cada dia
O pintor está lavando
As telas que coloria
O cantor está morrendo
Na sempre mesma melodia
Que segue o compositor horrendo
A extrair com maestria
As artes seguirão sempre
Com ou sem a alegria
As mentes se propagam cheias
As almas choram vazias
A vida ainda é bela
A beleza é que é mais fria


X(versus)
O sonho é dela
A dor sou eu
Doces pecados
Fria inocência
O azul do mar
Tão melancólico
Que em contraste
Reflete o sol
A vida mansa
Que não tem brisa
Pois a brisa os mansos
Não acalenta
Falar verdade
É ter certeza
Na ingênua nossa
Vã natureza
Ter a certeza
É se arriscar
Sábia Ciência
A que explica
Com veemência
E hipocrisia
A decadência
Da sedução
Gerando a super
população
Nomeia morte
Chamada tempo.
A vida é dela
Real sou eu
Belo deserto
Não gera flores
A minha sorte é uma armadilha
Nos seus braços
Não morrerei